abandonado

os gritos silenciosos que esses
móveis já ouviram
as gotas translúcidas de desespero
que lavaram essas paredes
cada noite solitária, desejando
que não amanhecesse.
a angústia impregnou-se
em cada cômodo e essa casa
trancou-se em meio a escuridão
assim como o coração que aqui ficou.

abandonado.

angústia

procuro uma certa flor
num jardim infinito
que com seu veneno
me promete o esquecimento.

angústia.

água gelada

entregar-se as lágrimas
um labirinto de altas paredes
profundo, assim como
o sombrio abismo que
cerca as saídas. saídas.
ilusões, sonho, mentira.
há diferença? faz diferença?

desesperança

será sempre assim?
um jardim de rosas
sempre no inverno,
sem nenhuma flor.
apenas os espinhos
os galhos secos e
o frio sem fim que
me envolve num manto
tão protetor, tão cômodo.
eu realmente acredito
que é a única opção.
e não é?

solidão

sede toma conta de mim
o veneno se mistura ao ar
sem controle sobre mim
como manter a consciência?
como acreditar em razão?
tudo o que acontece é vazio.
sobrevivi?
não há mais ninguém,
todos foram-se,
salvação egoísta.
ruínas.
agora que tudo é perfeito,
inexiste a presença humana.
sobrou eu e vazio, o vazio e eu.

visão

eu vi, apareceu para mim
nas luzes coloridas da madrugada
eu estava viajando,
mesmo assim uma explosão
tomou conta de mim.
incontrolável.
nas luzes coloridas da madrugada.

divagação

a vida é apenas um sonho.
é apenas eu sem nada,
desejando por mais e mais.
me dê mais. quero mais.
porém, quem disse que
podemos controlar nossos
próprios sonhos?

me dê vida, luz, esperança
tudo aquilo que me falta
nesse beco escuro, sem saída
é triste. é errado. não tem fim.
é apenas um pesadelo.

perdendo

esse sou eu num palco
sob a luz dos refletores
exposta, sou apenas nada.
a verdade me destrói.
uma mente em branco,
um corpo sem ação
que por instinto foge.
no escuro, um mundo
inteiro se esconde:
meu mundo, meu lugar.
mas os refletores,
eles nunca pagam.
fazem e fazem questão
de expôr, mostrar o
nada que eu sou.
e eu tento, sem sucesso
(sempre sem sucesso)
encontrar o mundo que perdi.

fevereiro me fez triste

apenas um começo,
de outro ciclo sem fim
nunca termina,
o que fazer para interromper?
dirigi até o penhasco
e esperei até o pôr-do-sol
e quando decidi acelerar
o carro não pegou.
assim a noite veio
e o dia apareceu de novo
nem pisquei, com medo.
quantos ali não caíram?
eu era solitário,
e vendo a lua aparecer
a cada noite estrelada,
sem fim, sem fim
eu terminei.

eternos os dias continuam
ainda mais tristes,
ainda mais solitários,
naquele penhasco.

descrição

o silêncio mata
aos poucos a mente esvazia
e a sensação é tão boa,
e então todas as dúvidas.
o medo. a paranóia.
a mente nunca silencia.
enlouquece e deixa o corpo.
por si só envenena o coração.
intoxica os sentimentos.
e às vezes acho que não há volta.
não há volta.