em outra vida, quando nós formos gatos

tipo Vanilla Sky sabe? esse filme nada a ver que só entendi na terceira vez que vi. agora seria um bom momento assistir ele, pois sabe, eles não ficam juntos no final. tudo bem que é só porque que ele está morto e congelado, sonhando com a vida que teria com ela, mas ainda assim é bem reconfortante.

Olhe para nós: Eu congelado, você morta. E eu ainda a amo.

você torceria o nariz para a dramaticidade, mas me ouviria mesmo assim enquanto eu contaria, sem fôlego, cada detalhe tentando fazer você ver o quanto a história é linda, romântica e sublime. e eu ficaria satisfeita em apenas falar e receber um beijo depois, mesmo sabendo que não convenci você. e tudo bem assim.

eu até já falei desse filme para você, lembra? aquele que tem aquela cena em que a garota diz para o mocinho “Ela parece chorosa, infeliz . Deve ser a garota mais triste que já segurou um martíni“, e como eu gostava da frase pois me identificava com a garota.

A garota mais triste que já segurou um martíni.

talvez hoje eu seja uma tal garota triste segurando um martíni. mas ainda bem que não sou essa em especial, pois foi essa loira triste do martíni do filme que enlouqueceu de amor paixão, se matou e levou junto o mocinho, impedindo que ele ficasse com a morena quente, que

não se recuperou, nunca. de alguma forma ela era a que mais te conhecia. assim como você, ela não se esqueceu das noites em que o amor verdadeiro parecia possível.

amor verdadeiro. ai ai. tem que ver para entender – umas três vezes, recomendo. mas cuidado. é muita realidade e muita ficção ao mesmo tempo. uma overdose.

Suporte técnico, eu quero acordar!

uma pena a vida não ter suporte técnico para quando ela começa a apresentar defeitos. pensando agora, só pode ser um defeito isso que aconteceu – ou que não aconteceu – entre a gente, não? paciência, quem sabe na próxima isso seja corrigido. quem sabe, como a morena quente do filme disse para o mocinho dela:

te conto em outra vida, quando nós formos gatos

miau.

quem procura acha

admito que fui com uma desculpa na cabeça e uma vontade no coração, mas só porque eu tinha muita certeza de como seria. e você estragou tudo. eu ia circular e não te encontrar, ia embora com a justificativa que eu tentei e não te encontrei, que não era para ser mesmo e bola para frente agora.

mas o que estava na minha frente era você. o que diabos você estava fazendo ali? o que eu fui fazer ali? era para ser uma despedida minha, uma caminhada pessoal, um… e agora era um re-encontro. mas tá. ainda podia ser uma despedida, sabe? se você tipo assim não tivesse me beijado. por que diabos você me beijou? foi tão bom. que direito tinha eu de te procurar, que direito tinha você de ser achado?

ainda teria sido uma despedida, se você não tivesse causado arrepios ao me tocar, se não tivesse me abraçado tão forte que eu não podia nem respirar. se eu não tivesse sentido que nunca mais precisaria respirar novamente se fosse para ficar abraçada assim com você. se não tivéssemos rido e conversado como há muito não fazíamos. se não tivesse me beijado de novo ainda mais e melhor do que antes.

e então eu fiquei. eu estava para ir emborae teria ido mesmo, se falando e, principalmente, ouvindo você.. não tivesse encontrado, dentro de mim mesma, aquela eu que havia perdido há tempos. mas eu encontrei, e quando senti aquele frio na barriga, aquela ansiedade boa e cruel, quando meus olhos voltaram a brilhar… gelo.

e aí foi muito ruim. talvez se não estivesse tão frio, tanto vento, se fosse outro dia, outra hora, outros tempos, ou se fôssemos gatos.

mas não estava, não era, não éramos.

tantas palavras presas na garganta, e tudo o que saiu foi boa noite, se cuide e até mais. e foi até mais que você respondeu, um adeus disfarçado de até logo.

ou o contrário, não sei. acho que nem você sabe.

sem lua

a noite é tão profunda;
prometa que não me deixará,
que cuidará de mim.

tenho medo de me afogar
em tamanha escuridão,
e sinto que apenas você
poderia me salvar.

não me abandone.

redenção

há algo de esperança,
nisso de não desistir,
de persistir na dor.

seria essa dor mais
gratificante que..
satisfação?

uma falsa satisfação.

ou isso é apenas o que
os pecadores pensam?

ambíguo

Minha respiração era irregular, e podia sentir o coração pulando em meu peito. Duas gotas de suor brotaram em minha testa franzida – sempre franzida. Preocupação. Medo. Ansiedade. Antecipação.

Lágrimas começaram a surgir em meus olhos. Eu posso sentir quando vou desabar. Meu corpo inteiro treme e tenho uma ânsia por gritar.

Não há espaço em mim para tudo o que sinto, para todos os pensamentos. É muito para que eu mesma possa suportar. E eu não suporto.

inutilidade

Parece um sonho, que nunca acaba. Um pesadelo. Um mundo visto por meio de uma lente embaçada e desfocada, que distorce a realidade. Tudo está no lugar errado. Nada se encaixa e é tão frustrante. Ser apenas um corpo, uma mente, um ser. Por mais brilhante, por mais inteligente… Inútil. Inútil e impotente.

ser. humano?

Distrações são necessárias ao ser humano.

Sem distrações, deixaríamos nos abater por nossos medos. Inseguranças. Dúvidas. Sequer sairíamos para ver a luz do sol lá fora.

Lá fora. Existiria algo além de nosso próprio ego? Algo importaria mais do que nós mesmos?

Algo… Importa?

sempre igual

estes sonhos escuros,
sempre sem sentido.
imagens embaralhadas.
desfocadas. assustadoras.
é tão.. comum, acordar.
sem fôlego, com um grito
preso na garganta.

não sei porque ainda
me surpreendo, mesmo
depois de tanto tempo.

tanto tempo.

mudanças

poderia morrer esta noite.
já estou tão distante,
que não sinto nada
me prender a este lugar.
meu corpo está entorpecido,
e minha mente perdida.

de repente tudo mudou
e eu não consigo entender.

porque?

abandonado

os gritos silenciosos que esses
móveis já ouviram
as gotas translúcidas de desespero
que lavaram essas paredes
cada noite solitária, desejando
que não amanhecesse.
a angústia impregnou-se
em cada cômodo e essa casa
trancou-se em meio a escuridão
assim como o coração que aqui ficou.

abandonado.