não seja convencido (convença-me)

escrever é o prazer de não ter mais você.

meus dias até podem ser todos seus,
e vez ou outra você pode me roubar o fôlego,
mas você não é o dono, nem o único
em meus pensamentos, minhas palavras.

como já dizia Victor Hugo,

A melancolia é o prazer de estar triste.

pois não tenho tristeza, nem melancolia.

apenas esse prazer estranho,
essa felicidade esquisita de
lembrar de você sem me afogar
em expectativassentimentos
(que não sabia, posso controlar
)

quando me pego romântica e sensível,
é por nostalgia, uma saudade distante
de uma pitada de você em minha vida;

e nada mais. é bom que você esteja longe.

minto,

você bem sabe

tenho apenas muitas máscaras
que me protegem e me escondem.

preciso que você volte para mim,
conquiste essas máscaras, convença-as
que não preciso mais delas, que é
você quem vai me proteger…

disso tudo que sinto por você.

faço essas confissões de mentira para confundir,
para acreditar que
ainda pertenço a eu mesma,
mas a verdade está nas entrelinhas da nossa história,

você bem sabe.

escrever é o prazer de sentir que você está aqui, comigo.

(mesmo que eu esteja , apenas com as minhas máscaras)

faça sol ou faça chuva

Foto por Alonso Díaz

esses dias mais longos trazem calorosas lembranças doces, com cheiro de chuva de verão. quantas vezes, andando pelas ruas dessas noites ensolaradas, nos molhamos, rimos e nos beijamos? deitados na grama, esperando a primeira estrela aparecer… sentindo o sereno na pele, observando fugindo dos insetos. revelando os segredos mais profundos, descobrindo um ao outro da mesma forma que se devora um livo novo. esses dias são nossos, estão impregnados com nossa paixão de primeiro amor.

quando fica quente desse jeito, é difícil respirar. talvez porque você sempre me deixava sem fôlego, ou porque sufoco em lágrimas, soluços e palavras. e é a mesma coisa com o frio, esses dias mais curtos em que te encontrava no escuro, com chuva, e você mesmo gelado, conseguia me esquentar por dentro. cheiro de chocolate, gosto de vinho, música e poesia no ar. os dias de inverno também são nossos, repletos de carinho e intimidade.

pensando bem, é errado falar assim. esses dias há muito deixaram de ser nossos. eu é que continuo doando os meus dias a você… pois te dou todos de uma vez. cada um deles te pertence, seja de frio ou calor.

são todos de amor.

olhei no relógio

senti um aperto no peito, inexplicável.
olhei a data, e a explicação invadiu meu corpo.
fiquei desnorteada com as lembranças.
você bem sabe – será que sabe?
nesse dia, por volta dessa hora,
tanto tempo atráslembra?
te vi, sorri e te amei, sem sequer saber seu nome.
(tudo bem, você não sabia o meu também)
agora, depois de todas as datas e horas
que partiram daquele instante,
de química instantânea,
tenho um sentimento estranho.
hoje eu sei seu nome - te conheço,
(embora não ouse dizer quem é você)
e te amo. não te vejo, não sorrio,
mas amo. interminadamente,
sem data de validade
. apenas datas
que causam esse aperto no peito
.

amor básico

libera única e exclusivamente para um único escolhido, é adstringente: tem elementos estruturais importantíssimos, mas precipita-se diante de problemas insolúveis. contrai os tecidos e vasos sanguíneos, causando falta de ar e aceleração dos batimentos cardíacos. combate as vontades da boca, da língua e dos lábiosajuda a cicatrizar as feridas da vida e tem gosto de eucalipto, guaraná, jaca e maçã, tudo junto e misturado. produz lágrimas que limpam a alma. alguns são fracos e não trazem danos. alguns são perigosamente corrosivos e devem ser tratados com carinho e cuidado. um amante básico é um aceitador, um doador, que neutraliza o lado ácido da vida. com presença, não presentescomo disseram as estrelas, já que não é apenas da ciência que vem a química do amor.

Referências

ando procurando você

mas em meu caminho, o tempo todo, encontro apenas
fragmentos
, pedaços incompletos daquilo que éramos.
estilhaços de um dado com infinitos lados;

em cada face,
uma faceta que representa
aquela eu, aquele você,
que no rolar da vida, em uma jogada de sorte e de azar,
se encontraram, desencontraram e quebraram-se.

e eu recolho esses pedaços em uma tentativa frustrada de
reconstruir você e de te guardar em mim, eternamente.

mas construo apenas um boneco sem vida, incompleto.
uma sombra do que você era, que brilha de estilhaços.

ando procurando você.

para me ajudar a recolher esses pedaços,
consertar essa boneca que você deixou quebrada,
dar vida a esse meu boneco de estilhaços.

vem, me encontra logo de uma vez.

vamos construir esse novo eu e você
(que eu não ousarei chamar de nós).

SURrealidade

sonhos estranhos me habitam enquanto penso dormir
alices, cogumelos, tijolos amarelos, lagartas e fumaça
se confundem
em uma familiar rua de ilusões.

caminhamos com as mãos dadas;
eu em meus sapatos prateados
,
você com suas virtudes e sentimentos.

eu te conheço mas não sei quem é você;
eu sei quem é você mas eu não te conheço.

talvez esteja apaixonada, talvez eu seja louca;
penso na leveza do sonho, no peso da realidade,
e diante do buraco que me levará ao outro lado
te pergunto medrosa: “você vem comigo?“;

nenhuma resposta, apenas um sorriso encantador.
então eu entro, eu vou e continuo pelo escuro túnel.

sozinha, acordo. ou acordo, sozinha.

não sei.

acho que você não existe.

voar é impossível

é quinta-feira, é meia-noite, estou sozinha, leve e distante. tão leve que eu poderia voar, tão distante que poderia cair. mas estou só, e tenho tontura. não vôo nem caio, apenas fico como o pião a rodar e a rodar, no mesmo lugar até parar;

parar e cair.

Emma Bovary c’est moi

Emma Bovary é a romântica incurável do romance Madame Bovary de Gustave Flaubert, e também é conhecida como biscate, safada e a piriguete mais famosa do mundo. Apesar disso, acho muito difícil não simpatizar com essa personagem trágica que inspirada pela literatura romântica e a educação de um convento, desejava o que não podia ter e em sua infelicidade, trai o marido, endivida-se e viveu feliz para sempre comete suicídio.

Altas doses de realismo romântico do século século XIX. Só para você saber, a protagonista desse polêmico romance já foi objeto de estudo da psicologia e da psicanálisise, e até originou o termo bovarismo para descrever o comportamento histérico, bipolar e psicopata que a consome. Ela também tem um três filmes, uma série de TV,  inspirou Dona Flor e seus Dois Maridos e por aí vai.

Madame Bovary

Talvez ela tivesse sonhado em fazer a alguém a confidência de todas essas coisas. Mas como relatar uma angústia indizível, que muda de aspecto como as nuvens, que roda em turbilhão como o vento? Faltavam-lhe as palavras, a ocasião, a habilidade.

Flaubert, Gustave. Madame Bovary.

A insatisfação era parte do ser Emma Bovary, essa pobre rica mulher que criou seus ideais de vida com base em romance e fantasia. A felicidade para ela sempre seria inalcançável, pois era construída em cima das coisas mais frágeis e inconstantes desse mundo: No marido entediante, nos amantes que a deixaram, na posição social, nos bens materiais, em TUDO; menos nela própria.

Gustave Flaubert, Emma Bovary c’est moi

É impressionante notar como um homem - em 1857! - foi capaz de relatar de forma tão fiel e realística os anseios e receios de uma mulher, ainda mais de uma incurável romântica como a Madame Bovary; personagem que é metáfora dos sonhadores, sensíveis, profundos e intensos, representante de todos os sofredores que diante do mundo real, se refugiam na fantasia.

Não é a toa que Gustave Flaubert utilizou a famosa frase “Emma Bovary c’est moi (Emma Bovary sou eu) em sua defesa – sim, ele foi processado, acusado de ofender a moral e a religião com seu livro e sua fútil e adúltera Emma Bovary – afinal, ele próprio fora um devoto do romantismo quando novo, mas mais que isso, ele retratou a típica realidade romântica da burguesia francesa da época.

Crítica pura. Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência.

Leia. Madame Bovary é um clássico, e isso por si só é o suficiente.

 Mais sobre Madame Bovary

em meu mundo romântico

o brilho dos olhos refletem o luar, as vozes são aveludadas, as palavras são leves, os toques são quentes e macios, os defeitos são invisíveis e os vícios, toleráveis. lá no fundo eu sei que é fantasia, mas é bem por isso que tudo é mais bonito por aqui.

O mundo inteiro é um terrível álbum de recordações a provar que ela existiu e que eu a perdi!
Heathcliff em O morro dos ventos uivantes

romance, vício incurável

romance é fantasia, traz dor e paixão, vício e loucura; seduz com esses sentimentos profundos e intensos como quase nada nesse mundo e torna-se um refúgio da rasa realidade, tão superficial.

o ser romântico se frustra com a leviandade, ele deseja um oceano infinito para explorar por inteiro, apenas para angustiar-se diante do impossível e se afogar em mágoas pelo desejo não realizado.

tenta, mas não consegue mudar. quando percebe o ciclo vicioso e tenta salvar-se, na superfície o choque com a realidade instaura um vazio tão grande no peito que é difícil aguentar: ele mergulha novamente no oceano de fantasia, numa tentativa de se encontrar.

e lá se perde novamente. não é romântico ser incurável?

Eu amei Alvin Lipschitz
Mais do que posso dizer.
Ele era um cara artístico.
Sensível. Um pintor.
Mas estava sempre atrás
De encontrar a si mesmo.
Ele saia toda noite,
Para procurar a si mesmo.
Nós terminamos por algumas
Diferenças artísticas.
Ele se via vivo.
E eu o via morto.
— Cell Block Tango, Chicago.